Mônica VelosoPsicanalista
Agendar sessão

Início / Artigos

Teoria psicanalítica

Semelhanças e Diferenças entre a Psicanálise Tradicional Freudiana, e as Psicoterapias Psicanalíticas

Por Mônica Veloso, psicanalista20 de outubro de 20268 min de leitura

Imagem de capa do artigo “Semelhanças e Diferenças entre a Psicanálise Tradicional Freudiana, e as Psicoterapias Psicanalíticas”

A psicanálise nasceu sobre o estudo do inconsciente nos processos de estudos clínicos sobre a histeria, dando inicio com técnicas da livre associação de ideias, contribuindo para historia em relação ao estudo do desenvolvimento humano na compreensão dos conflitos emocionais inconscientes. Com mais de um século de existência houve um avanço da “experiência humana de uma relação concreta entre dois parceiros, analista e analisando, mutuamente expostos á incidência de um no outro.” (Nazio, pag. 13. 2020). Com intuito de melhorar as técnicas psicanalíticas no mundo contemporâneo pode-se notar o progresso nas abordagens terapêuticas, em que a psicoterapia permitiu ser direcionada a uma orientação psicanalítica ou não.

Em 1950, houve um movimento em que surgia o seguimento em psicoterapia psicanalítica desenvolvida “pelo o Robert Knight, da Fundação Menninger e depois do Centro Austen Riggs. Como líder na psicanálise norte-americana, as principais preocupações de Knight foram exatamente suas relações com a psiquiatria.” (Wallerstein, pag. 22. 2015), o que resultou em uma abordagem que ele denominou em uma “descrição das diferenças declaradas entre as terapias psicanalíticas, indo da terapia de apoio à terapia expressiva, até à própria psicanálise, que estruturou os painéis, dentro da Associação Psicanalítica Americana, durante os primeiros anos da década de 1950.” (Wallerstein, pag. 22, 2015). Dois grupos sugeridos vieram como forma de terapias nessa vertente de Knight; o primeiro chamava-se ‘teoria de apoio’ que era voltada ao paciente que fazia a supressão do sintoma, ou muito resistente e que apresentava dificuldade em fazer o insight para alteração da personalidade; o outro grupo estaria ligado a ‘teoria expressiva’ relacionada à psicanálise propriamente dita clássica Freudiana em que as condições clínicas do paciente apresentavam desequilíbrio psíquico relativamente recente, causadas de experiências de uma vida conturbada.

Mais tarde a ‘terapia de apoio’ ficou conhecida como psicoterapia psicodinâmica e a clássica ficou conhecida como ‘psicoterapia psicanalítica’ em que ambas as técnicas eram aplicadas por um grupo restrito de psiquiatras norte-americanos. Essas abordagens chegaram e foram além do primeiro grupo de psiquiatras norte-americanos que desejavam mudanças nas técnicas de psicoterapia psicanalíticas, como por exemplo, em Bueno Aires na Argentina, onde foi possível a prática clínica com o Dr. Mauricio Goldenberg, que elaborou e aperfeiçoou a técnica psicoterapia psicanalítica. Atualmente é notório que esse interesse vem sendo uma constante e com isso uma crescente necessidade de atuação nas abordagens terapêuticas. A psicanálise clássica e a psicoterapia psicanalista deve ter algo em comum assim como as suas diferenças, isso faz com que “as semelhanças e diferenças entre psicanálise e psicoterapia psicanalítica constituem formas de tratamento de um mesmo corpo de conhecimento e utilizam o insight e a interpretação como ferramentas básicas de trabalho.” (Mondrzak, pag. 134. 2005).

A psicanálise tradicional freudiana é considerada uma terapia que desenvolve suas técnicas nas bases teóricas da psicanálise, em que os conteúdos psíquicos são revelados e interpretados nos processos do inconsciente da relação infantil do sujeito que se manifesta na neurose de transferência. “A psicanálise organiza em função de uma avaliação total da situação do paciente, de seu grau de enfermidade e do potencial adaptativo de sua personalidade. Elabora a sua estratégia levando em conta quais capacidades se acham invadidas por conflitos e quais se acham livres deles.” (Fiorini, pag. 2004). A psicanálise adquire um conhecimento global do paciente, que é vivido como uma experiência desde o primeiro momento. O paciente passa por uma entrevista e anamnese minuciosa, que vai permitindo já o início do processo analítico, na qual todos os dados fornecidos pelo o paciente sejam do seu passado ou presente, são formas de compreensão para o próprio paciente de como ele pode lhe dar com o processo terapêutico. Nesse contexto, a técnica psicanalítica baseia-se na investigação dos processos inconscientes, que se manifestam através da linguagem, das ações das produções imaginarias quer sejam: nos sonhos, nas fantasias e principalmente nas associações livres do sujeito que são a garantia da interpretação das resistências, das transferências e do desejo inconsciente.

No setting analítico, a posição do analista é neutra se fazendo perceber na linguagem do outro, alguns adota a sua condição de divã, não havendo contato visual direto no paciente, mas sentado atrás do paciente. Devido à neutralidade do analista, a frequência das sessões, é inserida de forma regressiva no processo terapêutico sem a necessidade de acelerar o processo psíquico em questão. O seguimento da analise ocorre a relação transferencial por parte do analisando que transmite através da linguagem os processos de pensamentos e sentimentos na pessoa do analista. O psicanalista é um sujeito passivo e ouvinte, mas também acolhedor. A psicanálise apresenta possibilidades de efetuar mudanças profundas na psiquê do sujeito, se o mesmo se dispuser para se envolver no tratamento terapêutico, estabelecer uma aliança terapêutica, pacientes com indicações de neuroses com aspectos do Ego relativamente preservado. Não é recomendada para as patologias fora do Id foraclusivo, mas nos casos de neuroses. O tratamento em psicanálise é por tempo indeterminado, o paciente é quem vai sentir de fato a sua recuperação, o que poderá determinar o fim do tratamento. “A psicanálise não é um sistema fechado, à maneira de uma teoria abstrata. Ela obriga a se abrir constantemente e a avançar de modo tateante, guiada por uma única exigência: empenhar-se na escuta daquele que sofre e verbaliza seu sofrimento.” (Nazio, pag.47. 2020).

A psicoterapia psicanalítica é uma forma de possibilitar essa verdade clínica em que se empenha a psicanálise clássica, em sua abordagem o objetivo se diferencia em relação à psicoterapia freudiana, “com mais flexibilidade que é o traço distintivo dessa técnica.” (Fiorini, pag.25. 2004). Esse método de tratamento de natureza emocional, em que o analista mediante a utilização da técnica psicanalítica vai aplicar juntamente com o sujeito que busca ajuda, visando remover sintomas presentes, retardar seu aparecimento, corrigir padrões disfuncionais de relações interpessoais, na tentativa de promover o crescimento e o desenvolvimento da psiquê.

“Uma psicoterapia pode conseguir, por meio do esclarecimento de aspecto básico da situação do paciente, um fortalecimento da sua capacidade de adaptação realista, de discernimento e retificação, em grau variável, de significações vividas.” (Fiorini, pag.24. 2004).

Pode se observar que na abordagem a função do terapeuta tem uma atuação mais ampla de forma mais ativo e participativo. Requer do analista uma posição para exercer ativamente do que se exige em processos prolongados em psicanálise clássica. O terapeuta elabora um planejamento de abordagem individualizada, com a finalidade de conduzir o paciente ao foco central que é remover o sintoma presente. Nesse processo é essencial uma avalição dinâmica continuada para atualizar informações e refazer ajustes. É de fundamental importância que os resultados que deseja alcançar em processo de terapia irão depender da força do ego do analisando com a aliança terapêutica, pacientes com habilidade de adaptar-se e a interagir “atribuindo ao sujeito na direção de futuro numa construção de imagem de valores de si mesmo com valores e metas que deseja alcançar; nas motivações primárias ditas como egóicas, regidas pelo o principio do prazer; como também as motivações secundárias, ou motivação de valor.” (Fiorini, pag.19, 2004). Orientar-se por um foco e objetivo determinado é base central do tratamento terapêutico.

Nessa terapia o tempo de duração é menor em relação ao método desenvolvido por Freud. É focada nas mudanças adaptativas, com intenção de melhorar a relação entre o sujeito e a sua vida em sociedade, possibilitando uma compreensão da abordagem do inconsciente aos fenômenos que geram os sintomas, traumas e sofrimento. Há recomendações para casos específicos de neuroses onde o analisando precisava ter a capacidade de exercer a construção de pensamento lógico, para exercer a análise e desenvolver a aliança terapêutica. É desenvolvida uma percepção do seu contexto de vida como um todo e aceitação de suas vivências infantis até a sua fase adulta, junto com seus conflitos atuais a uma forma de intervenção no processo terapêutico adaptativo.

“As formulações psicodinâmicas globais, exige do terapeuta o esforço de transformar sua compreensão do que ocorre num nível regressivo no processo primário, a problemática atual levando ao nível mais manifesto em superfície.” (Fiorini, pag. 30).

A psicoterapia psicanalítica baseia-se nos mesmos princípios da psicanálise que se utiliza do sofrimento psíquico de natureza consciente, mas que está intimamente relacionado a conflitos emocionais inconscientes. Suas indicações estão relacionadas às perspectivas de melhorias com a vida cotidiana do momento, como alguns exemplos: “em transição de etapas evolutivas (adolescência, casamento, conclusão de curso superior, menopausa, aposentadoria). Transtornos reativos em pacientes que mantinham antes uma adaptação aceitável... de intensidade leve a moderada.” (Fiorini, pag. 41. 2004). A conclusão terapêutica permite um ‘final aberto’ com a possibilidade posterior quando os objetivos do tratamento forem alcançados.

A psicanálise clássica tem objetivos de revelar o inconsciente e elaborar e resignar os conflitos infantis na relação de neurose de transferência através da livre associação de ideias. Enquanto o que se observa na psicoterapia psicanalítica é que ela se orienta por um foco na qual se baseia o tratamento que tem a ver com os conflitos e sintomas presentes na vida do paciente. A psicoterapia psicanalítica tem a sua teoria nas bases e fundamentos da psicanálise clássica freudiana, mas pode-se observar que houve modificações da teoria e na técnica, seja no tempo reduzido do tratamento, no analista mais ativo, entre outros.

Podemos concluir que as abordagens terapêuticas bem como a psicanalise clássica e psicoterapia psicanalítica diante de suas semelhanças assim como as suas diferenças, contribui com os seus resultados que é o objetivo principal do processo terapêutico a recuperação psíquica do paciente naquilo que o afeta, numa experiência de travessia e singular que esta relacionada à subjetividade do inconsciente.

Referências

  1. Cláudio Laks Eizirik, Rogério Wolf de Aguiar, Sidnei S. Schestatsky. Psicoterapia de orientação analítica: fundamentos teóricos e clínicos. – 2. ed. – Porto Alegre : Artmed, 2005.
  2. Cláudio Laks Eizirik, Rogério Wolf de Aguiar, Sidnei S. Schestatsky. Psicoterapia de orientação analítica: fundamentos teóricos e clínicos. – 3. ed. – Porto Alegre : Artmed, 2015.
  3. Fiorini, Hector Juan. Teoria e técnica de psicoterapias. São Paulo – Martins Fontes, 2004.
  4. J.– D. Nazio, Introdução às obras de Freud, Ferenczi, Groddeck, Klein, Winnicott, Dolto, Lacan. Pag. 13. Rio de Janeiro: Zahar, 2020.

A leitura despertou algo em você?

Se algum tema fez sentido para a sua história, a escuta psicanalítica pode ajudar. A primeira conversa é sem compromisso.