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Clínica psicanalítica

A interpretação na clínica psicanalítica

Por Mônica Veloso, psicanalista20 de outubro de 20266 min de leitura

clínica psicanalítica

Dentro da perspectiva da clínica psicanalítica, uma reflexão no campo de atuação da psicanalise é indispensável considerar a questão interpretativa naquilo que incomoda e causa sofrimento ao homem moderno, uma vez que ele é constituído historicamente por suas experiências de vida em sociedade. De alguma forma a subjetividade é algo que se produz e esse processo de produção terá um resultado na vida do sujeito que se torna necessário a valorização da interpretação analítica. “Digamos inicialmente que, entre todas as modalidades de ação do psicanalista, a interpretação é a única intervenção capaz de provocar uma mudança estrutural na vida do analisando e, naturalmente, na vida da própria relação analítica. ” (Nazio, Pág.140).

A interpretação está presente desde as origens da psicanalise. Nota-se, contudo que Freud na fase dos estudos sobre a histeria em 1895, na medida em que o objetivo principal era fazer ressurgir as recordações patogênicas inconscientes, a interpretação naquele momento não era ainda definida como modo de ação terapêutica. Em 1911, quando a técnica psicanalítica começa a se definir com o artigo sobre “O manejo da interpretação de sonhos na psicanalise”, é que a interpretação é agregada na dinâmica de tratamento.

Para Freud em seu tempo a interpretação visava trazer para a consciência o conteúdo recalcado causador de sintoma, que se constitui de uma ideia que deveria ter como objetivo refazer esse laço associativo, tornando consciente o elemento que está sobre o efeito de recalque. Conseguir ajudar o paciente a se conscientizar dos reais motivos dos seus sintomas, poderia auxilia-lo a livrar-se do sofrimento. Essa era a ideia inicial, porém ao longo de seus estudos clínicos a pratica analítica vai tomando forma e a interpretação também vai sendo reestruturada na clínica, passando a ter outro sentido, aquilo que remete ao simbólico do significante do analisando em sua fala.

“O que define uma interpretação não é a sua apresentação, não é a função instrumental que ela cumpre, não é o sentido que ela veicula. O que define uma interpretação é a sua efetuação. Quero dizer que ela se define pelas condições nas quais ela se produz no analista e os efeitos que ela gera no analisando. ” (Nazio, pag. 141).

A análise implica um trabalho a dois, confiança um no outro, vontade de superação, com finalidade de mostrar que a terapia não é somente um corpo teórico, com suas características terminológicas, mas que possivelmente a clínica desempenha a busca eficaz na solução do sofrimento psíquico. O analisando vai ampliar junto com o analista aquilo que seria muito pouco perceptível por ele mesmo. Tendo em vista o inconsciente do sujeito pelo o analista, a interpretação se dá em transferência, “seria dentro desse campo que a interpretação funcionaria, dobrando as resistências e resgatando Lembranças afetivas que atualizariam o desejo recalcado nele; e a partir da identificação dessa resistência poderia surgir uma interpretação”. (Birman, 1991). É dentro de uma perspectiva de linguagem passíveis de interpretar, que se traduz como indicadores da interpretação, por se aproximar das características do significante.

“Se quiséssemos resumir essas características em termos lacanianos, diríamos simplesmente: a interpretação é uma palavra de ordem de um dito pelo grande Outro, esperada pelo grande Outro, sendo o analista apenas o porta-voz, o veículo, o embaixador. Ela deixa o grande Outro, passa pelo canal do analista e se dirige para o grande Outro. São, portanto, palavras esperadas. ” (Nazio, pag. 144).

Temos esse outro que se vincula ao desejo que se produz na fala de quem possa interpretar e dar sentido, mesmo que sejam palavras esperadas, algo em sua singularidade produzida pelo “o outro”, o inconsciente, mas atravessada pelo o analista. A ideia de tentar desvendar os sentidos das palavras que se manifesta no comportamento do sujeito em momento de análise, tornando possível produzir um valor do significante que possa provocar um efeito de mudança positiva na vida do analisando, tendo em vista o grau de importância na relação analítica.

Os recursos teóricos em transferência se fazem necessário para que se possa criar no analisando a autonomia, sem fazer um fechamento e conclusões deixando ele refletir sobre si. Mas também é importante que o “saber o que domina nesse momento, no laço analítico, é saber em que posição se situa o analista. ” (Nazio, pág. 151).

É plausível que nesse campo de subjetividade é o lugar a se pensar no experimento, colocar em ação a experiência mesmo sem tanta noção do

destino que as palavras possam alcançar, pois é compreensível que as novas formas de poder em análise que o analista dispõe é, portanto, razoável pensar que as forças de resistências hora o limitam, ou que algumas vezes possa acontecer o contrário, de forma a vir a causar algum tipo de questionamento que o sujeito é conduzido a se sentir mais livre de suas verdades criadas. Sendo assim, a relação de poder pode indicar uma relação em analise uma criação subjetiva, seja de forças da resistência ou forças de libertação, imagino que o ideal seria que elas reproduzissem o equilíbrio de forças gerando mais autonomia possível.

O objetivo de uma análise é de capacitar o analisando a efetuar contato com a sua própria realidade psíquica, o processo para que isso aconteça parece muito difícil, mas requer um esforço em tornar possível tanto por parte do analisando como do analista.

“A interpretação de que falamos também não se confunde com os confrontos, deduções, conclusões tiradas pelo analista, que mostram ao paciente as sequências repetitivas da sua vida. A interpretação também não se confunde — continuo — com a parada de uma sessão, nem com a pontuação do relato do analisando e, menos ainda, com os jogos homofônicos das palavras, ao contrário do que acreditam muitas pessoas.” (Nazio, pag.153).

Essa reflexão é importante pois a subjetivação não declara a sua verdade absoluta em análise, ela se abre para possibilidades de uma nova construtiva que possa ser interpretada e dar sentido. Então, o que gera uma interpretação no analisando? “Ela permite ensinar-lhe a aceitar permutar várias vezes de nível de realidade psíquica. Cada permutação implica uma abolição do recalcamento e, por conseguinte, um superinvestimento da consciência como consciência aguda. ” (Nazio, pág. 155).

Uma consciência mais aguçada é o que se espera, um novo olhar sobre si, dentro de uma nova perspectiva, pois algo novo através de uma nova análise tende a ser elaborada e interpretada, tornando o sujeito mais consciente sobre si e capaz de reformular novas formas de racionalidade.

“As formulações da psicanalise se apoiam numa profusão imensa de observações e de experiências, e só quem repete essas observações em si mesmo e em outros tomou o caminho que leva a um juízo próprio. ”(L &PM, pág.134).

É possível que essas mudanças que o analisando possa vir a ter em sua vida em relação ao uso da experiência em análise, seja no percurso que o conduza a descoberta de si próprio com mais consciência de seus atos e afetos com mais autonomia possível, assim como também daqueles com quem convive. A clínica desempenha essa função de facilitar, conseguir estabelecer no processo de análise, desde que o sujeito se engaje no vínculo analítico, possibilitando uma experiência ímpar e conduzindo o analisando a uma afirmação da vida.

Referências

  1. /mar. 2009.
  2. Almeida, L. P; Atallah, R. M. F. Clínica, A Interpretação e o Campo de Experimentação. Psicologia em Estudo, Maringá, v. 14, n. 1, p. 149-157, jan.
  3. Birman, J. Freud e a interpretação psicanalítica. Rio deJaneiro: Relume-Dumará.,1991.
  4. Freud, Sigmund. Compêndio da Psicanálise. Porto Alegre. Ed. L&PM, 2013.
  5. J.-D. Nasio. Como trabalha um psicanalista? Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1999.
  6. Laplanche, J; Pontalis, J. B. Vocabulário da Psicanálise. São Paulo: Martins Fontes, 1996.

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