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Sociedade e cultura

Definindo e abordando os principais tipos de bullying

Por Mônica Veloso, psicanalista11 de outubro de 20268 min de leitura

Adolescente isolada na sala de aula enquanto duas colegas cochicham e riem ao fundo

Camargo (2011) diz que o bullying é um termo da língua inglesa (bully = “valentão”) que se refere a todas as formas de atitudes agressivas, verbais ou físicas, intencionais e repetitivas, que ocorrem sem motivação evidente e são exercidas por um ou mais indivíduos, causando dor e angústia, com o objetivo de intimidar ou agredir outra pessoa sem a possibilidade ou capacidade de se defender, sendo realizadas dentro de uma relação desigual de forças ou poder.

As diversas formas de violência que se apresentam no fenômeno bullying aparecem com incidência crescente no comportamento social da criança, do adolescente e também do adulto. É mais comumente identificado no âmbito escolar e familiar.

“O Bullying será discutido como fenômeno histórico-social que sempre existiu, sob o nome de violência, mas que se apresenta de formas especificamente construídas no processo de desenvolvimento da modernidade, cujos efeitos são os novos sintomas contemporâneos.”

Revista Exitus, 2015

A violência às vezes vem disfarçada de várias formas, com a intenção de humilhar, excluir, discriminar, dar apelidos ofensivos e espalhar mentiras, seja em grupo, individualmente ou de forma virtual. Tudo isso é conhecido pela nossa sociedade, mesmo sendo inaceitável. Ao que parece, o fenômeno bullying atua de forma consciente, podendo ser direto ou indireto, por meio de atitudes antissociais em que o agressor tem o desejo de causar dor e angústia à vítima.

A vítima fica vulnerável às chantagens e perseguições do agressor e, dependendo do caso, se sente frágil diante do jogo psicológico que ele impõe. Se o sujeito reagir de forma passiva, pode desenvolver adoecimento psíquico, com diversos danos à sua vida.

Quem são as vítimas?

“Os diferentes: se caracterizam com a cor de cabelo, cor de pele, deficiências, formas de se vestir, sotaque. Os indefesos: aqueles que são tímidos, que mostram medo e até choram. São os preferidos dos bullies. E os que se isolam do grupo: os pouco sociáveis, que têm dificuldade de relacionamento e de se defender.”

Escorel, 2009

Nessa relação de desigualdade de força ou poder, temos diversos tipos de bullying, o que faz deste um tema tão relevante nos dias de hoje.

Bullying físico

Esse tipo de bullying ocorre por meio de agressões físicas, mais comum em meninos do que em meninas. Conviver em grupo nos dias de hoje é arriscado: essa forma pode gerar violência física, como socos, chutes, empurrões e outras ações que envolvam contato físico. Às vezes é facilmente confundida com “brincadeiras”, mas deixa às claras as agressões.

“As meninas manifestam mais frequentemente agressões indiretas, tal como espalhar rumores (fofocas), difamações e calúnias ou excluir do grupo aquelas que consideram inadequadas.”

Neto e Osorio, 2011

Deve ser muito difícil, nos dias de hoje, para os pais ou responsáveis se sentirem seguros em relação aos filhos que vão ingressar nos estudos de forma presencial. Crianças e adolescentes estão possivelmente em um jogo “perigoso” quando o assunto é conviver socialmente. Ninguém lhes assegura se haverá ou não agressões.

Bullying psicológico

Este tipo de bullying acontece normalmente na ausência dos professores, sem a observação dos responsáveis. Por não envolver confronto físico, caracteriza-se por chantagens ou intimidações pessoais. As causas mais comuns dessa prática estão ligadas à forma de se comportar em relação aos demais, à maneira de se vestir ou de usar o cabelo, e podem vir também de questões de etnia, cor da pele, opção religiosa, classe social, entre outras. Infelizmente, esses motivos desencadeiam danos ou transtornos psicológicos como depressão, insegurança, baixa autoestima, ansiedade ou dificuldade de autoaceitação, e a pessoa passa a se sentir isolada ou sozinha.

O autor da agressão geralmente traz um mau comportamento que pode ter sido desenvolvido, ou sofrido, em um ambiente familiar tumultuado e conflituoso. A convivência com os familiares determina a educação que se leva para a escola. Por exemplo, se a criança vive em um ambiente de desrespeito, ela pode passar de vítima em casa para o papel de agressora na escola, o que é muito comum acontecer.

Geralmente, esses jovens são imaturos, hiperativos, dispersivos e têm necessidade de autoafirmação. É preocupante perceber como viver em sociedade se transformou, nos últimos anos, em uma ameaça crescente para esses jovens e crianças nas mais diversas escolas, sejam elas públicas ou privadas.

Bullying verbal

O bullying verbal tem como características as ofensas, xingamentos, provocações ou apelidos pejorativos, que se tornam repetitivos e constantes: palavras ofensivas, escritas ou faladas, que magoam, entristecem ou irritam a vítima. É a forma com mais registros e a mais frequente nas escolas. São agressões verbais repetidas, sempre contra um mesmo alvo, que visam humilhar e depreciar a pessoa. As constantes humilhações são as atitudes que definem essa forma de agressão. As consequências são inúmeras, entre elas a insegurança, a dependência e os problemas de interação social.

Nessa prática, às vezes o autor fica no anonimato, e ela geralmente ocorre longe da presença de um adulto. Porém, as mudanças de hábitos, o isolamento social e a tentativa de esconder alguma característica, física ou não, podem ser sinais de que a vítima esteja vivenciando essa situação.

Bullying material

Esta prática se apresenta quando o autor ataca o alvo por meio dos bens materiais do outro, de forma a danificá-los ou destruí-los: rasgar as roupas, roubar canetas, rasurar cadernos, entre outras ações que têm como objetivo atingir a vítima. Na grande maioria das vezes é acompanhada de intimidações e ameaças, mas também pode ocorrer no anonimato.

A vítima tem seus objetos furtados, danificados ou atirados contra si por um autor que tem a intenção de intimidar, humilhar e confrontar o alvo, demonstrando poder sobre ele por meio da força ou do constrangimento.

Bullying sexual

O bullying sexual caracteriza-se pelo assédio ou abuso sexual sistemático, seja no espaço da escola, de casa ou do trabalho. Pode ser físico ou verbal, desde que o comportamento tenha caráter sexual e resulte em constrangimento e humilhação. As calúnias podem ocorrer por conta da orientação sexual ou do gênero, e a difamação por conta de comportamentos, gostos ou maneira de se vestir. Às vezes toma grandes proporções, causando uma violência generalizada e fazendo com que a vítima tenha dificuldades de relacionamento, o que gera isolamento.

Alguns exemplos de bullying sexual: insinuação persistente, toques sem consentimento, olhares indesejados, comentários de caráter sexual, xingamentos abusivos, insultos homofóbicos, sexismo, circulação de fotos íntimas, entre outros. Em casos mais graves, o estupro.

Bullying virtual

No espaço virtual, acontece quando o autor usa os meios tecnológicos para fazer ameaças e humilhações, de modo que a vítima se torne alvo de diversos tipos de ataques, seja por e-mail, sites, redes sociais ou aplicativos de mensagens.

A violência virtual pode ocorrer em forma de ofensas, xingamentos, disseminação de boatos e fofocas, perseguição, intimidações, chantagens, roubo de identidade e compartilhamento de fotos pessoais sem autorização. Às vezes fica difícil identificar o agressor, por não haver interação presencial e pessoal.

Uma das formas de proteção é a prevenção. Embora seja uma tarefa difícil para os pais, é possível estar atento aos conteúdos que os filhos utilizam nas redes sociais e na internet. É importante que os pais possam fazer uso de software de segurança para bloquear acessos impróprios. O diálogo com os filhos é indispensável para gerar confiança e proteção, assim eles podem se sentir à vontade para falar o quanto antes, caso algo dessa natureza venha a acontecer.

Bullying social

Esse tipo de bullying tem a intenção de ignorar e isolar a vítima. Pode-se dizer que o bullying social é um tipo de bullying verbal, com a diferença de que esta forma de intimidação tem o interesse de excluir a vítima do grupo.

É muito frequente nas escolas e se caracteriza pela formação de “panelinhas”. Esses pequenos grupos, ao mesmo tempo em que agregam pessoas, também têm seus mecanismos de exclusão. Um exemplo é quando um aluno é impedido pelos demais de participar de atividades em grupo, sendo deixado de lado nos trabalhos escolares em dupla ou fora dos times esportivos nas aulas de educação física. A divulgação de intrigas, rumores, mentiras e acusações difamatórias pode afetar a reputação da pessoa, que tende a ter baixa aceitação social e a se isolar. Esse isolamento provoca danos psicológicos na vítima, para quem estar presente na escola se torna uma tortura.

O olhar da psicanálise

“Pode-se dizer que, dentro do enfoque psicanalítico, cabe uma atenção especial a quatro vertentes: a biológica, a familiar, a das interações sociais e a da vertiginosa aceleração da cultura pós-modernista.”

Zimerman, 2008

A escola é vista como o principal local do bullying, uma ação que se repete diversas vezes e que, de fato, não é um fenômeno da pós-modernidade: ele sempre existiu. Mas pode-se dizer que é um fenômeno potencializado nos dias de hoje, principalmente pela rapidez das informações nas relações virtuais, pelo movimento dessas informações e por relações em que crianças e adolescentes têm buscado ferir o outro sem ao menos se sensibilizar com a sua dor. Os valores parecem ter se invertido quando se pensa no sujeito como identidade. “Bullying” e “cancelamento” são palavras cada vez mais presentes na mídia e no cotidiano das pessoas.

Mas é importante refletir que agressor e vítima são sujeitos que sofrem com suas particularidades, ainda em formação quando se trata de crianças e adolescentes. O mundo que se apresenta a eles é um lugar de dores e sofrimentos, ainda não compreendido por eles mesmos, mas sentido por meio de suas ações, de seu comportamento e de suas experiências emocionais e afetivas. Isso pede um olhar clínico e multidisciplinar que possibilite aos pais, responsáveis e educadores uma aproximação diferenciada, voltada à conscientização dos danos causados pelo bullying, de forma educativa e ativa na escola e também na família, inserindo esses jovens em atividades que promovam empatia pelo próximo, por mais que existam diferenças e seja necessário conviver com elas.

Referências

  1. BOSSA NOVA EDUCAÇÃO. Bullying verbal. [S. l.], [20--]. Disponível em: https://bossanovaeducacao.com.br/bullying-verbal/. Acesso em: 11 out. 2026.
  2. CAMARGO, Orson. Bullying. Brasil Escola, [S. l.], [20--]. Disponível em: https://brasilescola.uol.com.br/sociologia/bullying.htm. Acesso em: 11 out. 2026.
  3. NETO, Francisco Batista; OSORIO, Luiz Carlos. Adolescentes: o desafio de entender e conviver. Florianópolis: Insular, 2011.
  4. REVISTA EXITUS. Santarém, PA, v. 5, n. 1, p. 154-169, jan./jun. 2015. ISSN 2237-9460.
  5. SAFERNET BRASIL. Cartilha bullying. [S. l.]: SaferNet Brasil, [20--]. Disponível em: https://new.safernet.org.br/sites/default/files/content_files/cartilha_bullying.pdf. Acesso em: 11 out. 2026.
  6. ZIMERMAN, David E. Fundamentos psicanalíticos: teoria, técnica e clínica: uma abordagem didática. Porto Alegre: Artmed, 2008. p. 74.

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