“O termo psicossomático (grafia antiga) fazendo a relação mente e corpo apareceu na literatura médica em 1818, em um texto de Johann Christian August Heinroth (1773-1843), psiquiatra alemão, no qual o autor, se referia algumas doenças orgânicas cuja etiologia era marcada por fatores emocionais. Na atualidade, o psicossomático descreve uma disciplina sustentada pela hipótese segundo a qual somático e psíquico formam uma única unidade funcional”. (Zirmerman, 2004)

A relação da psicanalise na percepção da psicossomática é histórica, o estudo do corpo em Freud foi muito importante para compreender o inconsciente marcando a sua passagem de neurologista para os estudos da psique humana. Freud em sua época mostrou o “porque a psicanalise ensina que o ego não é dono do mundo nem da espécie, como também não é senhor em sua própria morada”1.

A percepção da medicina era baseada nesse contexto biológico, que via o sujeito numa condição de causa e efeito sem levar em conta a vida subjetiva sem influências dos sentimentos e emoções. As enfermidades estavam relacionadas as disfunções bioquímica e físicas sem influência dos fatores psíquicos.

A ideia de que os processos psíquicos se originam e desenvolvem a partir dos processos biológicos tornou-se incontestável como o passar dos anos. “Para Freud o ego é ‘acima de tudo um ego corporal’, uma vez que deriva das sensações corporais, principalmente daquelas que se originam na superfície do corpo, o que permite dizer que não há psiquismo se não houver corpo”2.

“O primeiro medico a introduzir o conceito do inconsciente no tratamento de pacientes psicossomáticos foi George Groddeck, conhecido como o pai da psicossomática, para ele toda doença física é igualmente psíquica, e toda doença psíquica é também física”. (Mac Faden, 2018)

Em Groddeck a doença tem uma razão para existir, que via a doença como um símbolo, uma representação de um processo interno, como se fosse uma encenação do que não se pode dizer numa linguagem clara e especifica.

“A partir da década de 40, o termo ‘psicossomático’ passou a ser empregado como substantivo, para designar, no campo da medicina, a decisiva influência dos fatores psicológicos na determinação das doenças orgânicas, já admitindo uma inseparabilidade entre elas”. (Zirmerman,2004)

O corpo visto como sintoma por Freud, que foi observado nos estudos sobre a histeria a partir de 1823 que “considerava o corpo como investimento, em que o conceito de conflito reprimido, e os afetos a ele associados eram fatores importantes na patologia dos distúrbios psicossomáticos”3.

A construção teórica do corpo em Freud passou por várias etapas, desde as pulsões, no que se refere com a conversão histérica em seus textos entre (1893-1895), como também na forma de neuroses atuais (1896-1985). Ele foi remodelando a sua teoria e desenvolveu uma compreensão das emoções nas somatizações.

A psicanalise aborda essa questão com um olhar mais humano, uma vez em que o sujeito se constitui no ambiente familiar, nas relações socioculturais e nas relações afetivas, exercendo sua singularidade como sujeito. Podemos perceber que dentro da perspectiva da clínica, no campo de atuação da psicanalise é indispensável considerar a questão interpretativa naquilo que incomoda e causa sofrimento ao paciente do contemporâneo.

De alguma forma a subjetividade é algo que se produz, e esse processo de produção terá um resultado na vida do sujeito, tornando necessário a valorização da interpretação analítica. “É importante que o analista valorize o fato de que o paciente psicossomático tem uma forma peculiar de pensamento, linguagem e de lidar com as emoções e vínculos afetivos4.

Em análise é possível observar que a psicossomática constitui uma abordagem dos fenômenos psíquicos primitivos que podem ser tratados na clínica, é essencial regredir psiquicamente o paciente na perspectiva de atingir os níveis mais primitivos possíveis da vida emocional e naquilo que está inserido o somático. Nesse sentido, constitui a presença do corpo marcado pelas pulsões que indica o lugar do inconsciente. As pulsões por sua vez vão produzir na psicossomática aquilo que marca do orgânico e ao mesmo tempo do psíquico, tornando um vínculo ao longo do tempo na vida do sujeito um fator somado ao psiquismo. Ou seja, se originando no corpo que acaba por se canalizar ao psiquismo. O corpo do sujeito cada vez mais implicado e envolvido nessa relação somato-psiquico.

“Nas suas múltiplas manifestações, aguda ou crônica, a de origem orgânica ou traumática com repercussões orgânica, assim como a dor que é comunicada de forma superlativa, ou aquela que o sujeito sofre silenciosamente”. (Zirmerman,2004)

Essas formas de manifestações dolorosas, às vezes sem causa aparente, são as causas frequentes de angústia e o motivo de buscar ajuda profissional na prática clínica, sendo de fundamental importância a percepção do corpo, sobre o qual se projetam lembranças e o adoecer de determinado órgão do corpo, uma forma inconsciente do paciente expressar o seu sofrimento. Os pacientes propensos a somatizar seriam aqueles “incapazes de recalcar as ideais ligadas à dor emocional e igualmente incapazes de projetar esses sentimentos, de maneira delirante, sobre as representações das outras pessoas”5

Nas somatizações é importante perceber que o corpo da libido indica seu jeito próprio de se expressar, e a manifestação do sintoma parece não ter nenhum significado. “O narcisismo primário designa um estado precoce em que a criança investe toda a sua libido em si mesma. O narcisismo secundário designa um retorno ao eu da libido retirada dos seus investimentos objetais”6. Nas somatizações a constituição do narcisismo primário indica uma dificuldade no processo dos símbolos, ou seja, na capacidade de simbolizar devido ao recalque primário que foi substituído pelos os processos de recusa e cisão. O sujeito acaba por ter dificuldade de entender suas próprias emoções daquilo que vai transitar no corpo em processo psíquico. A dificuldade em se fazer entender a representação dos símbolos por meio da elaboração das palavras, em análise pode apresentar uma dificuldade em associar e abstrair as informações no que diz respeito a seus afetos, dificuldade em sentir pulsão de vida, se percebe a ausência da libido, faltando a vitalidade.

A transferência proporciona uma regressão naquilo que o sujeito ficou preso ao sintoma, o corpo do psicossomático é o lugar de conflito psíquico, o trabalho do analista requer uma habilidade importante diante de uma análise, talvez seja esse o desafio a ser enfrentado pelo analista dentro da perspectiva dos conteúdos emocionais que prende o sujeito; o dialogo consigo mesmo, acolher o paciente no sentido de interagir nas suas experiências emocionais, buscando fazer associações da sua vida passada com o presente, na tentativa de produzir uma reflexão de si mesmo. Identificar o corpo do psicossomático como o lugar de conflito psíquico talvez possibilite ao paciente reconhecer, interpretar e organizar seus próprios sentimentos na produção de linguagem, como um trabalho lento e educativo se assim ele permitir.

Referência Bibliográfica

Freud, Sigmund. Obras Completas. Rio de Janeiro: Companhia das Letras. O Eu e o Id. Autobiografia e Outros Textos. (1923-1925) Vol. XVI. Tradução de Paulo César de Souza. 2010.

Laplanche, J; Pontalis, J. B. Vocabulário da psicanálise. São Paulo: Martins Fontes, Pag.290. 1996.

Groddeck, G. W. O livro disso. São Paulo: Perspectiva. 2ª Ed. 1988.

McDougall, J. Teatros do corpo. São Paulo: Martins Fontes. Pag.105. 1991.

Mac Faden, Maria Adélia Jorge. Psicanalise e psicossomática. 2ª Ed. Campinas, SP: Alínea, 2018.

Ons, Silvia. Tudo o que você precisa saber sobre psicanalise. São Paulo: Ed. Planeta. Pag.19. 2020.

Zimerman, Davi E. Fundamentos Psicanalíticos: teoria, técnica e clínica – Uma abordagem didática. Pág. 328. Artmed. Porto Alegre, 2004.

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