Nos últimos tempos podemos observar as mudanças tão rápidas na estrutura e modelo de sociedade como um todo, gerando uma influência na forma de viver no mundo que se apresenta num mal-estar generalizado, seja nos laços familiares, nas empresas, nas escolas e consequentementenos domínios políticos. O sofrimento é espalhado e compartilhado em espécie de vírus. Com tantas incertezas não se sabe ao certo qual o caminho a seguir. A ideia de inventar um futuro ao que parece mais incerto do que antes, pois a pandemia chegou e se instalou de forma tão agressiva trazendo questões tão profundas sobre o nosso modo de vida, que nos provoca uma reflexão nessa experiência que estamos vivendo agora.
Existem tantas questões a se pensar que nos faz interrogar sobre o bemestar de viver no mundo, se é possível ter uma identidade bem resolvida na atualidade, uma vez que é tão complexo ter a ideia de um recomeço.
“Se antes o mal-estar localizava-se na impossibilidade da realização, hoje ele se manifesta na angustia da escolha. Quanto mais aumenta o risco da escolha, maior é a angustia.” (Forbes, Pag.31, 2013).
Atualmente nos deparamos com tantos caminhos e dúvidas, ao mesmo tempo sem nenhuma orientação. Tudo a todo instante parece ter um prazo de validade em curto prazo, com a sensação que o “a longo prazo” já não existe mais. E por diversas razões é admirável que a psicanálise atravessa um novo tempo seja ele qual for dentro de sua velocidade. A vida moderna se apresenta ao sujeito de forma com base no princípio da realidade de forma muito real e clara, aquilo que parece difícil de suportar, a realidade que não preenche o vazio e nem dar o sentido de existir, ao que está relacionado ao conflito subjetivo, ou seja, aquilo que causa certo impacto na maneira como pensamos, percebemos, sentimos e agimos no modo como nossa subjetividade se adapta e se processa.
Freud em seu tempo parecia se importar pelos fatos de sua época e o que podia repercutir no contexto social e na vida das pessoas. Assim tentar inserir o papel da psicanálise na cultura era um desafio a seguir. A vida social implicaria uma renúncia das pulsões, pois o ser humano tem em si necessidades de satisfazer seus desejos com a manifestação de impulsos vitais, que é possível por meio da interação da convivência com os outros numa sociedade compartilhada. O seu relato em “o mal-estar na cultura”, relaciona o sofrimento humano por meio de três fontes: primeiramente do corpo, “condenado à velhice e à dissolução, e que nem mesmo pode dispensar o sofrimento e a ansiedade como sinais de advertência; do mundo externo, que pode voltar-se contra nós com forças de destruição esmagadoras e impiedosas; e, finalmente, de nossos relacionamentos com os outros homens” (Freud, 1986, p. 85).
Passamos a escutar aquilo que o mundo em particular nos oferece como uma experiência do viver, e por desejar um mundo mais interessante com relação a vida, aceita-la com seus altos e baixos parece algo muitas vezes difícil de suportar, tornando a vida menos fascinante e infeliz. Um mundo com tantas representações de sofrimento e dor, que é fundamental pensar em bondade, compartilhar e demonstrar compaixão.
Os valores morais são importantes por si mesmos, assim como o amor, a gentileza, a verdade, a lealdade, a honestidade, a responsabilidade em relação a si mesmo e a sociedade.
Mesmo que sempre tenha existido a violência é um fenômeno muito aparente que ameaça nossos dias. “Ela aumenta dia a dia, faz-se presente como uma sombra que ameaça nossa existência. Respiramos ar violento, a violência nas ruas, à doméstica, as das notícias transmitidas pela mídia, a da própria mídia – com sua tinta vermelha, a de gênero, a social, a escolar, a juvenil, a criminal, a das guerras, a terrorista etc.” (Silvia, Ons. Pag.249).
Se existe um preço para viver em sociedade pós-moderna, é possível que se apresente através de seus sintomas seja; angustia, a ansiedade, a depressão, o medo, as compulsões, a insegurança social, pandemia mundial, entre outros.
“A globalização trouxe consequências em termos de desregulação de ordem social. Houve uma quebra dos ideais, uma mudança de paradigma no momento que passamos da era industrial para a era da informação. Sem ideais predefinidos, a pessoa precisa se inventar.” (Forber, J. 2013).
Percebemos que as consequências são inúmeras e o sujeito precisa se inventar dentro de um contexto de adaptação com tudo que ocorre no mundo, uma vez que não temos mais um modelo a seguir, assim como acontecia no nos tempos de Freud, onde havia uma tendência de colocar um representante no lugar para viver em sociedade, seja num pai, na religião, no presidente, nas empresas, nas escolas, enfim um represente no comando para controlar a liberdade para que pudéssemos viver em sociedade. Tornamos inseguros de nos mesmos ou sempre fomos, a diferença é que agora essa sensação é mesmo aparente com a sensação impossível de resolver.
As constantes mudanças são características marcantes de nosso tempo, fazem parte da sociedade ir à busca de uma solução para um futuro melhor, a ideia de “se inventar” remete a criar algo novo, a se arriscar mesmo com tantas incertezas, e saber se responsabilizar por qualquer causa e consequência.
“Os novos sintomas seriam uma expressão mais direta das pulsões. Os sintomas ditos contemporâneos estariam relacionados a esse empobrecimento da capacidade de simbolização e de associação por parte do sujeito, remetido ao tempo presentificado da compulsão e à narrativa literal do esvaziamento subjetivo, justificados pelo contexto social em que vivemos.” (Montes, 2012).
“O homem civilizado trocou uma parcela de suas possibilidades de felicidade por uma parcela de segurança.” (Freud, 1930/1996i, p. 119).
Para uma sociedade compartilhada é preciso reinventar uma nova realidade, num mundo onde isso seja possível ou nos contentamos com o reconhecimento das nossas fraquezas. A forma pulsional que se mostra como as pessoas respondem ou se interagem nessa nova realidade e como isso implica em suas vidas. Mesmo sem saber qual o jogo a seguir em relação ao futuro, não só por forças das circunstancias ou históricas, mas pelas próprias características do psiquismo humano como, por exemplo; como será a nossa vida subjetiva em relação à tecnologia de informação que parece a cada dia ter mais controle e manipulação dessas informações, já que estão num processo muito acelerado de expansão? O mundo virtual acelerou e passou ter impacto na vida subjetiva do novo sujeito, é possível observar esse impacto em várias atividades da sociedade, como saúde, educação, politica, lazer e como esses aspectos influencia a forma de viver na atualidade, será que estamos aprendendo andar mais inseguros de nós mesmos?
Segundo o Psicanalista Christian Dunker, interpretando Lacan sobre uma “nova linguagem do real”. Supõem que desejamos outro modelo de linguagem nos laços sociais, baseados na criação, no comportamento, na produção de intimidade que seja outro modelo de liberdade. A sugestão seria na solidariedade do sujeito que possa vir no seu interior uma subjetividade universal de forma dividida que não seja baseado numa unidade, uma suposição onde homens e mulheres fazem um só ser, mas de uma relação universal dividida que faz uma reflexão sobre os laços sociais horizontal, menos tendenciosa a obediência e seguir padrões, com o princípio de autoridade cada vez menos nos dias de hoje, mais de levar a adiante a verdade do desejo de cada um.
Referências
ETZLSTORFER, Hannes e NÖMAIER, Peter. Pense como Freud: Aforismos Selecionados e Grandes Questões do Pai da Psicologia Moderna. 1º Edição. São Paulo: Ed. Cultrix. 2017.
FORBES, J. Inconsciente e responsabilidade: A psicanálise do século XXI. 1º Edição. Barueri, SP: Manole, 2013.
FREUD, S. Sigmund Freud, Obras Completas Volume 18: O mal-estar na civilização, novas conferências Introdutórias à Psicanálise e Outros Textos (1930 –
1936). São Paulo: Companhia das Letras, 2010a [1933].
MONTES, Fernanda Ferreira. A psicanálise hoje: produção de novas subjetividades? Cad. Psicanálise. vol. 34, n.27, pp. 171-192. 2012.
Ons, Silvia. Tudo O Que Você Precisa Saber Sobre Psicanalise. 1º Edição. São Paulo: Ed. Planeta. 2018
Café Filosófico, Lacan: uma linguagem para o real – Christian Dunker. Youtube. Disponível em: <https://youtu.be/AbHNb1C8znM> Acesso em: 20 de dez. 2021. 50:24.

