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Envelhecimento

Velhices na sociedade do mal-estar: reflexões sobre a clínica psicanalítica com idosos

Por Mônica Veloso, psicanalista19 de agosto de 20264 min de leitura

Mãos de uma pessoa idosa seguradas com carinho por outras mãos, sobre uma mesa de madeira

A velhice na sociedade do mal-estar traz reflexões teóricas por meio da psicanálise, baseadas em autores como Freud, Winnicott e Beauvoir. Possibilitando a percepção do ponto de vista da sociedade contemporânea de como é entendida e aceita a vida do sujeito longevo, muitas vezes sendo deixada de lado pela sociedade atual, com a tentativa de reduzir a subjetividade do longevo e seu modo de viver no mundo.

Temos atualmente um número crescente de idosos no Brasil e no mundo que refletem a sua condição social. Reconhecer e aceitar a velhice como parte integral da vida pode levar a uma sociedade mais inclusiva e compassiva, onde os idosos são respeitados e valorizados por suas contribuições e conhecimentos acumulados ao longo dos anos.

As influências sociais que moldam a vida das pessoas idosas impõem à subjetividade do longevo numa condição de vida voltada mais para as categorias e limitações físicas como se existisse uma única forma de velhice, mas não considerando suas múltiplas formas de envelhecer, uma vez que, “não existe coisa de velho”, mas o que cada um irá fazer e significar nessa fase mesmo sendo marcada por perdas significativas.

O idoso pode encontrar na psicanálise de forma relevante o acolhimento de suas demandas. Em transferência terapêutica, o longevo tem oportunidade de se sentir aceito e compreendido sem julgamentos, ter o momento para refletir sobre suas escolhas e entender melhor sua complexidade emocional, isso contribui a assumir responsabilidades, se autorizar pelo seu bem-estar. Analisar sobre falhas cometidas no passado e a aceitação desses mesmos erros, isso possibilita nessa fase o acolhimento de limitações que podem contribuir para reflexão mais serena diante das emoções especialmente ao confrontar a finitude e sua natureza efêmera da existência.

O avanço da idade pode influenciar de forma significativa a vida psíquica do idoso e a variedade de experiências trazidas ao longo dos anos, percebê-lo como alguém que mesmo “velho” pode ser levado em conta à construção da vida presente e não se submeter de forma passiva às expectativas do outro, isso atribui valor e significado apesar das inevitáveis perdas que acompanham o envelhecer.

O ressignificar a velhice na perspectiva da psicanálise contemporânea implica dar lugar ao sujeito longevo esse reconhecimento, que possibilita potencializar a esperança nessa fase da vida que pode ser refletido no sentido de promover a capacidade de superar desafios com o intuito de incentivar uma mentalidade construtiva em relação ao futuro, possibilitando o fortalecimento da consciência.

A sociabilização contribui para a construção de uma nova imagem do idoso associado ao sujeito mais ativo e integrado. Interagir socialmente atua como espécie de um antídoto contra a solidão, proporcionando conexões significativas e um senso de pertencimento que é tão relevante para o sujeito longevo, nesse sentido a troca afetiva com outros indivíduos é essencial para a saúde mental tornando uma experiência social mais inclusiva, diversificada e que se sinta valorizado e participativo socialmente.

A autora Simone de Beauvoir afirma que a “vida é um sistema instável no qual se perde e se reconquista o equilíbrio a cada instante; a inércia é que é o sinônimo de morte. A lei da vida é mudar” (Beauvoir, 2016, p. 15).

Na perspectiva de Beauvoir que nos convida a reconhecer que a vida é um processo dinâmico, cheio de altos e baixos, e que a verdadeira vitalidade está na capacidade de se adaptar, evoluir e mudar. A inércia apresenta resistência à mudança, é o que nos afasta da verdadeira experiência de estar vivo.

Referências

  1. BEAUVOIR, Simone de. A velhice. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2016.
  2. FREUD, Sigmund. A questão da análise leiga (1926). In: FREUD, Sigmund. Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1976. v. 20.
  3. FREUD, Sigmund. Sobre a transitoriedade (1916). In: FREUD, Sigmund. Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1996. v. 14, p. 317.
  4. FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização, novas conferências introdutórias à psicanálise e outros textos (1930-1936). Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010. (Obras completas, v. 18).
  5. WINNICOTT, Clare. D.W.W.: uma reflexão. In: WINNICOTT, D. W. Explorações psicanalíticas. Porto Alegre: Artes Médicas, 2005. p. 1-13.
  6. WINNICOTT, D. W. O conceito de indivíduo saudável. In: WINNICOTT, D. W. Tudo começa em casa. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2011. p. 3-22.

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