“O termo pulsão aparece na França em 1962, derivado do latim pulsio, para designar a ação de empurrar, impulsionar. Empregado por Freud a partir de 1905. Passou a ter um conceito fundamental da teoria psicanalítica. A palavra pulsão para traduzir do alemão Trieb deve-se à preocupação de querer evitar qualquer confusão com instinto.” (Silvia Ons. Pág.57).

“Tanto no alemão como no francês, os termos Trieb e pulsion, respectivamente remetem, por sua etimologia, à ideia de estímulos independentemente da orientação e da meta”. (Silvia Ons. Pág.58).

Em sua pesquisa Freud se via numa questão extremamente importante e ao mesmo tempo instigado na investigação e na construção das pulsões, em busca de uma resposta em que a pulsão é algo que vai se inscrevendo e se construindo sobre o biológico no corpo humano. “Como um impulso dinâmico que tem uma fonte, uma finalidade e um objeto e descreve suas implicações. A pulsão age como uma força constante comparável a uma necessidade que não pode ser suprida a não ser pela satisfação”. (Quinodoz, Jean-Michel.Pág.152).

Logo quando a criança nasce, as primeiras experiências de satisfação vão deixando traços na vida psíquica. Os estímulos externos vão dar uma ideia de desorganização biológica, indicando que a teoria das pulsões constitui o inconsciente através da percepção do outro, pois esse outro vai marcando com a sua presença, assim como a sua ausência, com a sua satisfação e insatisfação.

A relação entre dois: o sujeito e o objeto “passa a ter representações para a psique tão importantes que ao longo de sua obra, o dualismo pulsional tomará diversas formas”. (Silvia Ons. Pág.59.)

A pulsão caracteriza-se em dois processos distintos. A primeira sendo a autoconservação (pulsões do ego), onde ocorre o desenvolvimento das primeiras funções vitais onde o modelo da fome-alimentação indicaria algo mais elementar e concreto na ligação entre impulso e objeto de realização do impulso. Por exemplo: (se tenho fome, então quero me alimentar). É o processo de manter a vida, construir o eu e manter as pulsões do eu. O segundo seria pulsão sexual onde se refere e se insere no corpo, logo vai chamar de fonte da pulsão e que ela parte da zona erógena.

“O discurso Freudiano nos propõe a constituição do aparelho psíquico no registro originário. Para que isso possa ocorrer, de fato e de direito, necessário seria supor que o infante, que vem ao mundo com o organismo marcado pela insuficiência vital, seja acolhido por outro. Esse outro vai lhe dispensar cuidados sem os quais ele não poderia efetivamente sobreviver, em decorrência de insuficiência vital”. (Birman, Joel. Pág.97)

A pulsão dar indícios que vem do outro e não parece ser biológica e que não nasce entre o psiquismo e o somático, mas se encontra no campo do outro, ou seja, o outro vai construir algo em mim, vai construir a subjetividade. Em sua narrativa ele descreveu as diferentes formas da vida psíquica. O sujeito e o objeto em relação ao mundo externo. O prazer-desprazer que são as sensações e determinação dos nossos atos ou vontades. O ativo-passivo ao qual se refere ao eu, e como se comporta passivamente diante do mundo externo e como reage a ele, mostrando que é uma passividade ativa.

Freud destacou o destino das pulsões e que “são os diversos modo de defesa que são erigidos contra as pulsões a fim de impedir a uma ação. As pulsões sexuais, segundo ele, sofrem os seguintes destinos: a transformação no contrário e o retorno à própria pessoa.” (Quinodoz, pag.156). Como por exemplo: o retorno do sadismo em masoquismo, uma passagem da atividade passiva em ativa e uma inversões de papeis entre quem inflige o sofrimento e quem sofre.

A pulsão percorre um caminho para atingir um objetivo fazendo um circuito que parte de uma determinada fonte, que tem uma força ou energia que é o objeto de satisfação, e ao fazer esse percurso e satisfazer o desejo, retorna em si mesmo, para que se faça um novo ciclo e assim satisfeito o desejo vai dar início e criando outros e outros. Talvez por ser algo casual e passageiro, e por não ser algo único e específico, podendo ser qualquer coisa das mais variadas possíveis. De alguma forma a pulsão vai provocar uma falta e daí se organiza pra chegar a essa falta. A pulsão é como um movimento em busca de satisfação contínua por isso não para e não satisfaz. É próprio do ser humano viver a insatisfação porque o movimento precisa continuar pra gerar satisfação e dela se desfazer e se desorganizar. Mas a pulsão no sujeito não fica bem, pois o sujeito pela ânsia de desejar provoca uma falta e acaba fracassando e não alcança o seu objeto.

A pulsão nos faz pensar que algo em nossa vida pulsiona e que não está rotulada somente em conceitos, mas na vida prática, produzindo uma interpretação que nos permite entendermos e nos conhecermos melhor, algo que nos instiga, interroga e até mesmo nos angustia. Talvez tenha sido essa força pulsional que Freud percebeu e interpretou em seus estudos muito além do seu tempo, mostrando em sua obra uma grande experiência psicanalítica que foi teorizada e interpretada fazendo-se conhecer melhor as reações do inconsciente. A satisfação pulsional que se repete e não importa qual é o objeto que o pensamento reproduz. Uma representação que pode ser entendida com a influência do outro, fazendo vibrar na mesma frequência, produzindo uma interpretação no que se fala e no que se escuta através daquilo que se pensa. A pulsão é fundamental, pois sem ela na vida do sujeito seria impossível ter informações do inconsciente, da livre associação de ideias, da transferência, da repetição e da criação do pensamento. Esse experimento tornou possível uma melhor compreensão de como a determinação pulsional, pode criar o livre arbítrio e transformar a nossa vida.

REFERÊNCIAS

BIRMAN, Joel. As pulsões e Seus Destinos. Para Ler Freud. 3º

Ed. Pág. 152. Ed. Civilização Brasileira. 2009.

FREUD, Sigmund. Obras Completas. Rio de Janeiro: Companhia das Letras. Introdução ao Narcisismo, Ensaios de Metapsicologia e Outros Textos. (1914-1916) v.XII, pág. 39-58. Tradução de Paulo César de Souza. 2010

ONS, Silvia. Tudo o Que Você Precisa Saber Sobre Psicanálise. Pág. 57-58. Ed. Planeta do Brasil, 2018.

QUINODOZ, Jean-Michel. Guia de Leitura da Obra de S. Freud. Pág. 97. Ed. Artmed. 2007.

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