Em psicanálise a transferência é um instrumento fundamental para o analista. Caracterizado como “propulsor de cura, princípio de seu poder, condição de sua eficácia. A entrada na análise implica sua instauração, e o fim diz respeito também a sua resolução e a seu destino”. (Ons, Silvia.pag.47).
A posição do analista é algo singular, movida pela elaboração do pensamento subjetivo do sujeito, uma forma de incluir o seu próprio desejo no processo de transferência, isso requer habilidade, pois no campo da análise quem delimita é o próprio sujeito.
“A transferência funciona como uma abertura do inconsciente, favorecendo o exercício associativo”. (Ons, Silvia.pag.47).
Em 1880 Josef Breuer amigo de Freud contribuiu para uma compreensão da relação médico-paciente com quem naquele momento ele pode aliviar os sintomas de depressão e histeria de sua paciente chamada Anna O. (Bertha Pappenheim).
Alguns de seus sintomas se apresentavam como: paralisia com contratura muscular, confusões mentais e dificuldade de organizar o próprio pensamento. Sintomas estes físicos, mas com sentimentos reprimidos causando dor e sofrimento psíquico, além de físico. Em seu tratamento Breuer, utilizando o método da hipnose, pôde observar que as reações de Anna, além de revelar à causa de seu sofrimento, os sintomas foram desaparecendo e ela evoluía para uma significativa melhora promovendo o seu bem- estar, pois sentia-se bem após o tratamento hipnótico. Anna foi estimulada a conversar sobre os seus sentimentos e emoções, no sentido de provocar as recordações dolorosas com o objetivo de serem trazidas a consciência, aos poucos ficou esclarecido para Breuer, que poderia dispensar a hipnose já que suas recordações dolorosas iam desaparecendo com a terapia da conversa. Através dessa experiência, Breuer pôde concluir que os sintomas neuróticos resultam de processos inconscientes e desaparecem quando se tornam conscientes. Daí surgiu o método da catarse, que seria a liberação de emoções ligadas a situações traumáticas, expressadas durante os momentos dolorosos, assim levando a liberação dos próprios sentimentos e afetos que lhe causavam tanto sofrimento.
O método catártico evoluiu e serviu como ferramenta para dar início ao método da livre associação de ideias. “Para grande assombro de Breuer, quando ela relata os detalhes do surgimento de certos sintomas, estes desaparecem. A própria Anna batiza tal procedimento com o nome de “cura de conversão”, ou “limpeza de chaminé”. (Ons, Silvia.pag.47). Logo após Breuer deixar o caso de Anna por motivos familiares, surge então o interesse de Freud em dar continuidade a pratica terapêutica sobre quadro clínico da histeria. O papel do analista para Freud é desenvolver a escuta atenciosa para desvendar as significações psíquicas do eu, e nesse caso seria uma oportunidade para ir muito além do que se chama psicanálise.
Existe uma tendência do sujeito ao movimento de ir ao encontro do outro de forma inconsciente levando a uma identificação, assim como tal aconteceu com Anna O. Nesse exemplo temos uma compreensão de que “falar da identificação de uma pessoa com outra equivale simplesmente a falar de amor, pois só posso me identificar com outro se esse for o meu eleito. Ou seja, com mais precisão: identificar-me com o outro, assimilá-la e deixar-me assimilar por ele, é exatamente amá-lo. A identificação é a palavra que nomeia o processo do amor.” (Nasio.J.D.pag.84).
O inconsciente por sua vez com toda as suas informações: lapsos de memorias, atos falhos, chistes e os sonhos, são lidos pelo o analista no processo transferencial. Essa experiência da transferência com o analista, é única e se apresenta como uma nova oportunidade de reviver os traumas e ir além de suas neuroses, a uma “neurose transferencial”. Ou seja, se refere aquela criação do pensamento junto com o analista, fazendo uma repetição de sua fala, dos conteúdos reprimidos e traumas, criar uma nova interpretação no sentido de que não se trata de criar uma nova neurose, mas no sentindo de extrair a neurose através da linguagem e ressignificar aquilo que perturba o sujeito. E para que isso aconteça se faz necessário uma atitude de confiança no analista.
Por outro lado, em uma análise, o analista seria como se tivesse “emprestando o seu corpo ao analisando”. Ele se oferece em experiência da transferência para receber a demanda de fala do analisando, pois ele não sabe sobre o inconsciente do mesmo.
O saber propriamente dito em si o analista não sabe, quem sabe sobre si está na voz do próprio sujeito, suas particularidades, intimidades, suas angustias, medos e dores sobre si. As coisas menos importantes e bobas que possa parecer, para a psicanálise são consideradas relevantes e singular. Tudo que vem no discurso importa!
E qual é a posição do analista diante de uma análise? Pressupõe que todos os julgamentos imaginários e rótulos, que visam a objetivar o sujeito devem ficar suspensos em razão de uma entrega de si, para obter uma melhor leitura do inconsciente do analisante.
“O instrumento do psicanalista não é apenas o saber, mas acima de tudo seu próprio inconsciente, único meio de que ele dispõe para captar o inconsciente do paciente”. (Nasio, J. D. Pag.86). A psicanalise é uma pratica de leitura e escrita sobre um saber, e nesse saber de estudos, técnicas e analise, supõe que o analista se ofereça a essa experiência junto ao analisando para formar um só inconsciente.
Essas “formações do inconsciente, cujo o aparecimento se alterna entre analista e analisando, podem ser legitimamente consideradas como a dupla expressão de um único inconsciente, o da relação analítica”. (Nasio, J.D. Pag.86.). A presença do analista é que permite colocar um ato em cena de uma análise, indicando um suposto saber ao analista sobre o sofrimento do analisando, isso vai permitir que a transferência possa ser elaborada trazendo a livre associação de ideias do sujeito. Onde a palavra tem voz e vez de ser ouvida e compreendida pelo o analista, assim como pelo analisando.
Esse manejo da transferência requer uma habilidade importante diante de uma análise, talvez seja esse o desafio a ser enfrentado pelo analista dentro da perspectiva dos conteúdos emocionais que prende o sujeito; o dialogo consigo mesmo, descobrir as causas em si mesmo e tudo aquilo que o bloqueia e o aprisiona, pois os sintomas
psíquicos resistem as forças do pensamento na tentativa de impedir a ação da mudança por medo do desconhecido ou pela sensação de se sentir “confortável” e deixar as coisas como estão, pois o desconforto da mudança pode trazer responsabilidades que muitas vezes o próprio sujeito desconhece. Então, se faz necessário superar resistências e construir novas realidades, desbloqueando as resistências e ultrapassando as barreiras psíquicas junto com o sujeito naquilo que se apresenta em sua narrativa, desenvolvendo uma experiência de intimidade, onde o analista precisa se desligar de todas as questões de si mesmo, e se entregar na entonação das questões do analisando, entrar em sintonia com o mesmo, acolher um encontro com o outro que é único em cada uma das suas narrativas.
Para uma melhor compreensão, podemos concluir que um vínculo é estabelecido, onde o analista está na posição de receptor de suas ideias, que tem a chance de lhe mostrar os pontos cegos que muitas vezes são despercebidos pelo o inconsciente. Dessa forma o analista conseguirá estabelecer um processo de transformação na vida daquele que sofre, e que esteja disposto ao processo e conhecimento sobre si. Ambos, analista e analisando são desejantes de seus desejos e se encontram para um processo de construção do inconsciente que se manifesta com força, potência e vontade, na qual ambos estão sujeitos às revelações e afetações de forma mútua. O desafio da transferência traz uma reflexão para se pensar qual é o lugar do analista já que se faz necessário desenvolver uma experiência e a criação no processo analítico. As questões como; o desejo de se permanecer analista, a manutenção de sua análise pessoal, a supervisão e estudos teóricos, essa dinâmica de saber como usar as ferramentas que lhe convém para que o próprio analisando tenha progresso analítico. Considerando que em cada análise é uma sucessão de algo novo sobre si, ou seja, um novo investimento para um novo saber.
REFERÊNCIAS
Nasio, Juan-David. O Prazer de Ler Freud. Ed. Jorge Zahar. Pag.86.1999
Ons, Silvia. Tudo O Que Você Precisa Saber Sobre Psicanalise. Ed. Planeta. Pag.47. 2020
Sigmund, Freud. Obras Completas, Rio de Janeiro: Ed. Imago, 1980. Edição Standart Brasielira. Vol. V. Pag.543-600.
Laplanche, J. e Pontalis, J.B. Vocabulário da Psicanalise. Ed. Martin Fontes, 2001.

